quinta-feira, 5 de julho de 2012

Casquinha da Ferida

Quando eramos crianças, costumávamos  nos machucar muito. Bater nos móveis, levar inúmeras picadas de mosquitos, tirar a "tampa" do dedão do pé, ralar os joelhos... a maioria das vezes, essas feridas criavam as famosas casquinhas, que quase com um instinto, sentimos a necessidade de arrancá-la. Mesmo sentindo dor... mesmo sabendo que vamos sangrar... mesmo sabendo que nossas mães iriam ralhar, dizendo que poderíamos deixá-las piores e que demorariam mais para curar.

Querendo ou não, isso pode ser relacionado com tudo o que já foi dito sobre o melhor, e também às vezes pior, sentimento do mundo. Quantas vezes você já não consolou um amigo ou uma amiga que levou um fora e, infelizmente, o fez relembrar alguns dos momentos bons que eles tiveram juntos? Quantas vezes você já não se pegou pensando naquela paixão, aquele alguém que te fez sofrer, que não deu certo? Cutucamos feridas abertas, recentes, a fim de reviver momentos que gostaríamos de ter de volta: tiramos a casquinha da ferida. A maioria delas ainda dói, ainda é vermelha o suficiente para nos fazer sofrer tanto quanto sofremos quando a adquirimos. Outras, por outro lado, já tiveram sua "casquinha" removida outras vezes, sua história já fora contada a outras pessoas e, com cada uma delas, foi deixada um pouco da dor. Por fim, há aquelas que já sararam, que já não doem mais. Porém, sua cicatriz permanecerá naquele que a adquiriu. Mas são essas histórias, essas feridas, essas cicatrizes que fazem de nós o que somos, que nos fortalecem. Cada uma delas é sinal de que superamos algo e nos tornamos mais fortes.

domingo, 27 de maio de 2012

Sem título

O que eu achava ser certo, não é. Aquilo que eu acreditava, deixou de ser verdade. Chorei, sim, muito. Cheguei a pensar que não seria capaz de continuar dirigindo para voltar para casa.... Falando em pensar, ele nunca parou para fazê-lo quando se tratava de mim, nem se quer por um momento. Me senti um nada, um lixo, simplesmente INVISÍVEL. Não foi o que ele fez, mas o que deixou de fazer e dizer. Chorei novamente enquanto procurava um ombro amigo para conforto. Sei que nada será como antes; sei também que preciso me encontrar novamente.
Um ano... esse foi o tempo que eu sofri em silêncio por um amor que não sabia se daria certo... mesmo assim, lutei para que desse. Uma pena que não aconteceu, mas quem perdeu foi ele. Sei que vai demorar, mas vai chegar o dia em que olharei para trás e pensar: "obrigada, você me salvou de algo sem futuro."
Eu estava aqui o tempo todo, só você não quis ver.

sábado, 5 de maio de 2012

“— Percebeu? Por alguns momentos, apenas alguns momentos, é como se houvesse assim uma espécie de esperança, de possibilidade de esperança. seja o que for, você está quase alcançando.”
Caio Fernando Abreu

domingo, 8 de abril de 2012

E disse pela segunda vez: - Isso é amor. - Será? Tem coisas, tem coisas que ele escreve que parecem. Não sei, parecem verdade, entende? Ele me toca, mexe comigo. Talvez eu esteja assim toda lisonjeada porque alguém parece prestar tanta atenção em mim. - Isso é amor - eu repeti pela terceira vez.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Medo de se apaixonar

     Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.

Fabrício Carpinejar.